A ponte pênsil da amizade

Tatayayá e Gatyuba são inventivas e corajosas. Assim que se veem pela primeira vez, mesmo de longe, elas se identificam e querem ser amigas de qualquer jeito. Só que as indiazinhas pertencem a povos diferentes, inimigos desde tempos imemoriais. Quebrar comportamentos e tabus antigos é algo muito complicado. Será que até mesmo com uma amizade tão forte?

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Há muito tempo, quando os indígenas eram os únicos habitantes do litoral paulista, aconteceu uma curiosa história no local que hoje chamamos de Ilha de São Vicente.

Tudo começou no dia em que Tatayayá e Gatyuba se viram pela primeira vez. As meninas acompanhavam os guerreiros, que amarravam suas canoas nos pontais em margens opostas do rio Mar Pequeno. Elas se entreolharam com curiosidade e interesse. Pressentiram que seriam amigas. Tatayayá pertencia à tribo Niquim e Gatyuba, à tribo Nambá. Nada indicava, entretanto, que a amizade entre elas seria possível.

Os Nambá e os Niquim eram povos inimigos e viviam em constante atrito. Por qual motivo, ninguém sabia contar direito. Tinha sido assim desde sempre. Desde a época em que a terra em que viviam se separou pela força da natureza, formando assim as duas aldeias, uma de cada lado do Mar Pequeno.

Precisando habitar e defender espaços distintos, talvez quem sabe até por isso, as tribos passaram a se isolar. Havia outras lendas sobre a origem dessa briga ancestral. Uma delas dizia que em tempos muito antigos, os Nambá, que eram antropófagos, teriam aprisionado e morto a tacape o pajé dos Niquim. Depois disso, como era o costume, teriam comido a carne do morto para se apossar de seus conhecimentos e poderes mágicos.

Verdade ou não, o fato é que os Nambá e os Niquim não se gostavam e não se falavam. O Mar Pequeno, porta de saída para o majestoso oceano Atlântico, cheio de perigos e mistérios, ajudava a manter os povos separados. As lendas reforçavam o sentimento de estranheza e de rejeição recíproca entre as tribos.

Mas a tradição e as histórias só faziam aumentar o imenso desejo das meninas de se aproximar. Tanto que passaram a se encontrar quase todos os dias, cada uma no pontal da sua margem, e a se comunicar por gestos e sorrisos.

Esse hábito causava desconforto entre os Nambá e os Niquim. Os demais membros das tribos viviam alertando as meninas de que aquilo ainda ia acabar mal. Os Niquim assustavam Gatyuba:

– Qualquer dia desses os Nambá vão te fazer prisioneira e vão querer te comer.

E os Nambá advertiam Tatayayá:

– Olha que os Niquim vão enviar espíritos malignos pra te enfeitiçar.

Nem assim, as indiazinhas desistiam. Deixavam de se ver por alguns dias, mas logo sentiam falta uma da outra e voltavam a se encontrar. Desse jeito, passaram a se conhecer e a se admirar cada vez mais.

Quando descobriram que seus nomes tinham a ver com a cor dos seus cabelos, ficaram extremamente felizes com a coincidência. Gatyuba tinha o cabelo claro, e seu nome significava árvore de flores amarelas. Tatayayá quer dizer fogo que anda e seu cabelo era avermelhado.

Também desenvolveram um ritual em que exibiam, à distância, o seu brinquedo favorito e fingiam, em seguida, que estavam juntas enfrentando todo tipo de aventura. Gatyuba trazia quase todo dia para o pontal uma boneca que o pai tinha feito com palha colhida no mato seco.

Os Nambá habitavam as terras na margem direita do rio, que por serem secas, eram chamadas de Ibitininga. De fato a terra, totalmente plana, não tinha rios nem riachos, por isso nela era muito difícil cultivar qualquer planta.

Já os Niquim habitavam o lado das terras elevadas, na margem esquerda do rio. Com suas muitas nascentes e cachoeiras, essas terras eram chamadas de Ibitirapi, que quer dizer alto da montanha. Por ser uma região irregular, cheia de sobes e desces, era também difícil de plantar qualquer coisa.

Os Nambá tinham terra, mas não tinham água, e os Niquim tinham água, mas não tinham terra. Mesmo assim, não se atreviam a pensar que poderiam se ajudar. Os dois povos viviam apenas da pesca e da caça. Mas naquele dia, tudo mudou.

O sol estava alto e quente e não havia nenhuma nuvem no céu. Gatyuba estava em pé no pontal. De repente, um vento malandro tirou a boneca de palha de suas mãos. A pequena índia Nambá, surpresa, ficou imóvel, e quando olhou em direção à água, o brinquedo já deslizava na correnteza. Foi tudo muito rápido. O vento apareceu do nada e assoprou a água, que assoprou a boneca para bem longe das margens de sua aldeia.

Do seu pontal, do outro lado do rio, Tatayayá observava cada movimento de Gatyuba. Tomou um susto quando viu a boneca cair na água, mas logo ficou de pé, em alerta. O vento trazia o brinquedo para as margens de sua aldeia. Com gestos cheios de significado, tranquilizou a amiga. Ela salvaria a boneca e a devolveria.

Depois de resgatar a boneca, a índia Niquim, de cabelos avermelhados, correu para o cipoal porque tinha tido uma grande ideia: “Vou amarrar uma ponta do cipó no tronco mais alto do pontal. Na outra ponta eu amarro a boneca na flecha e atiro tudo com meu arco para o lado de lá”.

Assim que voltou correndo para as margens do rio, Tatayayá fez tudo como planejado. Os índios, grandes e pequenos, homens e mulheres, adultos e crianças, sabiam muito bem usar o arco e flecha. E foi com grande habilidade que a menina atirou sua flecha-boneca, que fez uma longa e curva trajetória que acabou caindo um pouquinho mais à frente dos pés de Gatyuba.

Gatyuba se agachou no chão pronta para agarrar a boneca. Mas o cipó em que ela estava amarrada engastalhou no tronco do seu pontal e, como se fosse a linha de uma vara de pescar, deu uma fisgada para trás arrastando a boneca de volta para a água.

Dessa vez, Gatyuba não pestanejou e pulou na água. Mas o vento, esse malandro, assoprou forte de novo, só que em direção ao grande oceano Atlântico, formando ondas agitadas que empurravam tudo para o mar aberto. Aflita e querendo ajudar, Tatayayá também não pensou duas vezes: pulou na água e nadou até onde estavam Gatyuba e a boneca.

O mar a essa altura era uma massa de ondas e espuma. Mal dava para ver as meninas, que lutavam para retornar à margem.

Justamente nessa hora, os homens das duas tribos pescavam ali perto. Estavam em silêncio absoluto, dentro de suas canoas, atentos aos movimentos dos peixes. Ouviram então o barulho das meninas gritando e se debatendo para não se afogar no mar agitado. Imediatamente remaram com vigor em direção aos pedidos de socorro.

Foi um corre-corre danado, uma confusão. O vento forte atrapalhava, parecia até ter a intenção de que alguma coisa ruim acontecesse. Ou alguma coisa boa…

Na pressa, Gatyuba foi resgatada pelos Niquim e Tatayayá pelos Nambá. Foi a primeira vez em muito, muito tempo que os Nambá e os Niquim se ajudaram. Os índios das duas tribos, quando perceberam que estavam com as meninas trocadas, se prepararam para corrigir o engano.

O vento e água balançavam as embarcações, os adornos e a plumagem das lanças dificultando a manobra. Depois de muitas tentativas, finalmente os índios Nambá e Niquim conseguiram alinhar as canoas e ficaram em pé para destrocar Gatyuba e Tatayayá. Numa demonstração de respeito e reconhecimento pela destreza demonstrada, se saudaram, e de maneira cerimoniosa, se despediram.

O cipó que Tatayaya tinha usado permanecia preso do pontal dos Nambá ao pontal dos Niquim, suspenso numa linda curva para baixo.

Aquele arco de cipó foi uma visão inspiradora para os guerreiros das duas tribos, no momento em que remavam de volta para suas respectivas margens. Enxergaram uma grande possibilidade de união entre Ibitininga e Ibitirapi.

Quase sem dizer uma palavra, trabalharam em grupo e de forma coordenada para construir uma ponte ligando as terras dos dois povos utilizando pedaços de madeira sustentados pelo cipó. Só descansaram quando ficou pronta.

Com a ponte no lugar, os Nambá e os Niquim começaram a se visitar e a se conhecer. Foi então que perceberam que poderiam melhorar suas condições de vida se conseguissem levar a água de Ibitirapi para Ibitininga e desta forma produzir mais alimentos para ambos.

De novo, a inspiração veio da ponte construída e, por baixo dela, atravessaram um sistema de bambus bem grossos por onde passou a correr a água.

Desse dia em diante, houve muita fartura de hortaliças, frutas e raízes tanto para os Nambá quanto para os Niquim.

Contrariamente às previsões mais pessimistas, Gatyuba não foi devorada, tampouco Tatayayá foi enfeitiçada. Agora as duas índias brincavam juntas de verdade, ora na aldeia Nambá, ora na aldeia Niquim. Exatamente como imaginaram no dia em que se viram pela primeira vez.