A Torre de Belém

Sem estar vestido de branco, é impossível entrar na Torre de Belém, são as ordens do rei dom Manuel. Mas um dia, a princesa Isabel conhece um misterioso cavaleiro negro e os dois se apaixonam. Como é que o rapaz vai conseguir entrar na imponente construção se ela está sob a proteção de guardas e até de um dragão para garantir o cumprimento das leis e crenças do rei?  Uma história de amor e sobre o poder das novas gerações de renovar antigas tradições.

Vem ouvir também a entrevista com o psicanalista Christian Dunker sobre a importância de histórias como essa para o desenvolvimento da criança na série Conversas com o Capitão Moish!

 

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Às margens do rio Tejo, onde ele se encontra com o oceano Atlântico, dom Manuel, o poderoso rei de Portugal, mandou erguer a mais bela das construções de sua época. Era uma torre de 5 andares toda feita de pedra branca que o rei chamou de Torre de Belém.

De um dos terraços da torre, a princesa Isabel contemplava a bela tarde de outono e admirava as idas e vindas das gaivotas voando sobre o Tejo. Ela usava um vestido branco; também branco era o lenço que cobria sua cabeça e a protegia do sol. O vento soprava leve, mas, de repente, uma rajada arrancou o véu da cabeça da menina e o carregou para longe, em direção à praia.

Isabel acompanhou com o olhar o lento vaivém do lenço flutuando no ar até perceber uma imagem que tirou seu fôlego. Era um cavaleiro. O rapaz estava vestido de preto. O tom de sua pele era moreno e tinha o cabelo bem escuro. Montava um cavalo imponente, alto, forte, com a pelagem tão negra que parecia refletir tons de azul.

O cavaleiro acompanhava também com o olhar o vaivém do véu flutuando no ar vindo em sua direção. Assim que o véu pousou no dorso de seu cavalo, pegou-o com cuidado e tentou descobrir de onde ele tinha vindo. Foi então que viu a Torre de Belém.

– Que beleza! – exclamou.

Ele nunca tinha visto algo parecido. Examinou a construção de alto a baixo e quando viu a imagem da moça no terraço, ficou ainda mais impactado. O tom de sua pele era alvo e seu cabelo quase branco de tão claro. Logo ele percebeu que Isabel era diferente.

Ele vinha da África. Em suas andanças, tinha atravessado o Estreito de Gibraltar, passado pela Espanha e estava chegando em terras portuguesas. Mesmo sem fôlego, com o véu apertado contra o peito, aproximou-se do terraço e se apresentou:

– Meu nome é Carlos. Vim lhe devolver o que é seu. Como posso chegar até aí?

Isabel sorriu.

– Fico muito grata por se preocupar comigo – ela disse. – Mas ninguém que não esteja vestido de branco pode entrar na Torre de Belém. Ela é guardada por soldados armados e pelo terrível Dragão.

– Que ordem mais sem sentido! – Carlos falou.

– Eu concordo! Mas são ordens de meu pai e ninguém ousa desobedecê-las – respondeu Isabel contrariada e, nesse momento, suas bochechas ficaram ligeiramente coradas.

De fato, o rei tinha fascínio pelo branco. Não apenas a Torre de Belém, mas também os móveis, as louças, os tecidos e tudo o mais ali dentro tinha que ser imaculadamente branco. Inclusive os habitantes da Torre, dos serviçais até a família real, todos deviam usar roupas brancas. Mesmo os visitantes! O cavaleiro, no entanto, não desanimou:

– Então, devo falar com o rei em pessoa! – afirmou.

– Infelizmente não vai ser possível. Meu pai está muito longe de casa, em outras terras, guerreando – Isabel respondeu tentando imaginar qual seria o próximo passo daquele rapaz tão determinado.

– Bem, não se preocupe. Vou pensar em algo, pois faço questão de lhe entregar o véu em mãos – Carlos encerrou a conversa com um sorriso e se afastou lentamente fazendo uma mesura de despedida.

Isabel o considerou um pouco atrevido, mas aprovou sua atitude firme. E, na verdade, achava que aquela ideia antiga do pai, de que tudo fosse branco, já durava tempo demais.

Carlos galopou em seu cavalo negro por um bom tempo às margens do rio arquitetando um plano. Quase desistiu, mas o seu bom humor característico o fez recuperar a confiança em si mesmo e voltar ao plano original.

– Vou ter que improvisar para surpreender os guardas e o Dragão – ele pensou em voz alta. –

Descendo do cavalo, ele o prendeu a uma árvore próxima e se dirigiu a pé em direção à entrada da torre. A ponte levadiça sobre o fosso que circundava a construção estava abaixada e dois soldados armados com lanças de ferro e espadas faziam a guarda.

– Alto lá! – eles falaram.

Carlos não se deteve nem se amedrontou. Ele era durão!

– Vim em missão! Gostaria de devolver este véu que o vento me trouxe. Pertence à princesa.

Os guardas foram rápidos na resposta:

– Pode deixar o véu conosco. Faremos com que chegue a ela.

Carlos retrucou sem pestanejar, mas com educação:

– De jeito nenhum. Eu mesmo devo lhe entregar o véu, como é o costume!

Espantados com a insolência do cavaleiro, os guardas ameaçaram:

– Temos ordens de não deixar entrar na Torre nenhum indivíduo vestido com outra cor que não seja o branco. Se insistir, teremos que chamar o chefe da segurança.

Um leve calafrio percorreu a espinha de Carlos. Ele sabia que chamar o chefe da segurança significava chamar o Dragão. Mas disfarçou.

– Pois podem chamar!

Assim que um dos guardas saiu em disparada, Carlos, que também era forte e ágil, rapidamente dominou o outro sentinela e o amarrou à árvore onde estava seu cavalo negro. Aí se escondeu debaixo da ponte levadiça.

O Dragão veio a toda, bufando, irritado com o intruso que ousava desafiar as ordens de seu rei. A cada passada que dava, a imensa cauda batia contra o chão fazendo estremecer tudo ao redor. Quando chegou ao portão de entrada e não viu ninguém, vociferou:

– Não adianta se esconder! – rugiu, soltando faíscas pela boca à medida que atravessava a ponte.

Enquanto isso, às costas do Dragão, Carlos saltou de seu esconderijo e, silenciosamente, entrou na Torre atravessando a ponte levadiça. Passou pelo portão principal, cruzou o pátio interno e subiu a escada que levava ao terraço onde estava a princesa. Quando chegou, Carlos disse com ar de triunfo:

– Promessa cumprida! Véu entregue à mais bela dama que já esteve diante dos meus olhos.

Isabel sorriu e falou:

– O cavaleiro é gentil, corajoso e muito divertido! Com certeza, é uma bela companhia para essa tarde maravilhosa. Por que não me acompanha para vermos o encontro do rio com o grande mar?

Lá fora, no entanto, o Dragão estava possesso. Ao perceber que havia sido enganado, voltou para dentro e logo vislumbrou a sombra negra do cavaleiro manchando a alvura da Torre, que deveria ser protegida a qualquer custo. De seu hálito brotou uma chama e seu rugido feroz ecoou por todos os andares:

– Uaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!

Ao ouvir o urro, Carlos escapou para uma das guaritas. O Dragão perdeu-o de vista e voltou à saída. Aproveitando o momento, Carlos passou por trás do enorme monstro, subiu a escada até o segundo andar e gritou:

– Dragão ou não, as cores vencerão!

Das narinas do Dragão saíram jatos de fumaça. Fervendo de raiva, ele voou pelos degraus acima. Mas Carlos já estava no terceiro andar.

– Está me procurando? – ele provocou.

Enquanto o Dragão galgava ainda o terceiro andar espirrando chamas por todos os poros, Carlos alcançou o outro terraço da Torre e chamou a atenção do monstro antes de descer pela parte externa do castelo e se acomodar novamente em baixo da ponte levadiça.

– Você não perde por esperar, forasteiro; mais cedo ou mais tarde, vou te pegar – gritou o Dragão já lá embaixo, do lado de fora, olhando com velocidade para todas as direções à procura de sua vítima.

Ágil como a lebre, Carlos pulou de volta para a Torre e repetiu seu brado:

– Dragão ou não, as cores vencerão!

– Pois vai ser agora que vou dar um fim nessa história – gritou o animal.

E decidido a executar um salto sobre Carlos, tomou distância para impulsionar o imenso corpo. Mas Carlos estava no comando. Operando com destreza o mecanismo das correntes, ergueu a ponte levadiça.

O Dragão, em pleno ar, desabou no fosso. Fumaça, faíscas e urros deixaram de sair de suas entranhas. Ele era um dragão de terra. A água apagava suas forças. Agora, parecia mais um gatinho molhado e assim permaneceria para sempre.

O cavaleiro negro voltou vitorioso ao terraço. Ele e a princesa poderiam enfim contemplar o final de tarde sobre o Tejo, conversar e se conhecer. As horas passaram voando até o sol se pôr. Despediram-se com a certeza de que começavam uma bela amizade.

Carlos e Isabel se encontraram muitas vezes depois do dia da luta contra o dragão. A Torre de Belém, livre das labaredas do monstro, não representava mais uma ameaça; ao contrário, tinha se transformado em um lugar de alegria.

A amizade entre os dois jovens virou namoro, que virou comemoração de noivado. No convite de casamento enviado ao reino inteiro, havia um recado bem claro: “trajes de todas as cores serão bem-vindos”.

Quem estranhou a mudança violenta de cenário foi o rei. Meses depois, ele chegou dos campos de batalhas exatamente no dia do casamento. Deu de cara com seus domínios enfeitados para a festa com bandeirolas verdes, amarelas, rosas, azuis e vermelhas! Foi um choque de realidade.

– O que está acontecendo? O que fizeram de minhas ordens? Está tudo de ponta-cabeça! – esbravejou sem acreditar no que via.

– Papai – Isabel gritou correndo em sua direção! – Hoje é o dia do meu casamento. Estou tão feliz! Você vai gostar de Carlos. Ele é divertido, gentil, inteligente…

Dom Manuel, cansado e abatido pelo tempo fora de casa, lutando em batalhas sem sentido, estava com as antigas certezas abaladas. Mesmo assim, não se deu por vencido.

– Isso é uma loucura! – ele se opôs, ordenando que tudo voltasse a ser como era antes.

Ninguém se mexeu. Os tempos eram outros, o rei percebeu. Uma nova realidade se impunha. Não demorou muito também para se dobrar à felicidade da filha. E num último gesto inesperado, comandou:

– Venha aqui e me dê um beijo! E pode ir me explicando tim-tim por tim-tim o que significa essa profusão de cores? E o que aconteceu com o Dragão? Esse Carlos…

A música ficou mais alta e animada; os convidados movimentavam-se sem parar formando um mosaico de mil cores no salão. A torre de Belém era só alegria.

Transbordando de felicidade, Carlos e Isabel dançaram a noite inteira.