Ivan e os girassóis da Rússia

 

Ivan é filho de Basílio e Elena, soberanos da Rússia. Curioso, esperto e impulsivo, ele é louco para mexer em tudo que aparece na sua frente para desvendar seus segredos, barulhos e funcionamentos. Por isso, é conhecido como Ivan, o terrível.

Quando o rei o convoca para visitar os campos de girassóis, a rainha vai logo lembrando o marido: “Cuidado com o Ivan na plantação, você sabe, ele é terrível”. Será que o menino vai corresponder à expectativa dos pais dessa vez?

Cada contação de história corresponde a uma entrevista na série Conversas com o Capitão Moish. Vem ouvir!

 

Ouça esse podcast

Leia essa história

Há muito tempo, num país bem distante, a Rússia, vivia uma família rica e poderosa. Basílio e Elena eram os soberanos, que governavam as vastas terras com força e determinação. O rei e a rainha tinham um filho, Ivan, que estavam educando para se tornar um dia o rei de todo aquele império.

Ivan era um garoto de temperamento impulsivo, esperto, curioso e imaginativo. Gostava de mexer em tudo o que aparecia na sua frente. Ganhava todo tipo de presente. Assim que recebia algo novo, queria logo saber como funcionava, o que seria possível fazer com ele. Era incansável na investigação dos usos de seus brinquedos. E como eram muitos, seu quarto parecia sempre uma bagunça, ou uma criativa oficina de exploração, como ele gostava de pensar.

O rei e a rainha não se incomodavam com essa característica do filho, porque consideravam que enquanto estivesse ocupado brincando, Ivan estaria bem cuidado e aprendendo. A curiosidade de Ivan, entretanto, o levava a quebrar os próprios brinquedos: às vezes queria saber quão alto podiam voar; outras vezes os destruía para ver o que tinha dentro; ou simplesmente desmontava peça por peça pelo desafio de conseguir montá-lo de novo, o que nem sempre acontecia. Elena, quando tropeçava em um desses brinquedos dissecados dizia:

– Ivan, você é terrível!

Ivan não entendia exatamente o que essa frase queria dizer, mas compreendia que a mãe prestava bastante atenção em seu jeito de ser, portanto, suas habilidades exploratórias deviam ser importantes.

Ivan também tinha afinidade com a música. Apreciava tirar sons dos objetos mais improváveis. Foi assim que uma vez, instigado pelo desejo de averiguar a musicalidade das xícaras, bules e pires de um conjunto de chá de porcelana do palácio, jogou todas as peças de uma só vez no chão. Bem, só restaram milhares de cacos de todas as cores que não serviam para mais nada.

Só que aquela louça refinada e linda era um presente que o rei Basílio tinha recebido de súditos importantes, reis de outros impérios. E foi assim que Elena deu a notícia ao marido:

– Basílio, esse menino é terrível, quebrou seu jogo de chá favorito!

Ivan notou uma expressão de braveza se formando no rosto do pai, mas que em seguida se desmanchou transformando-se numa sonora gargalhada. Depois de recuperar o fôlego, no entanto, o rei disse:

– Ivan é mesmo terrível. Acho que um dia pode até virar um bom rei. Mas por enquanto, para aprender a não mexer nem estragar as minhas coisas vai passar dois dias sem sair do quarto!

Por essas e por outras, Ivan passou a entender que tudo o que ele fazia tinha sempre como consequência algum castigo, mas também causava alguma forma de admiração. Ou seja, o que quer que significasse ser terrível, era bom! E concluiu: “Eu sou terrível!”.

Como parte de sua educação, um belo dia o rei resolveu levar Ivan para conhecer os lindos campos de girassol do reino, que eram tão exuberantes e bem cuidados que todos na Rússia comentavam. Basílio anunciou a Elena sobre o plano da visita e ela imediatamente exclamou:

– Cuidado com o Ivan lá nas plantações. Você sabe, ele é terrível, e vai querer pisar nas flores ou despedaçar algumas para ver como são por dentro!

O rei então se fez acompanhar de seu mais fiel escudeiro, o Sacha, e o orientou a ficar de olho no menino que, como todo mundo já sabia, era terrível.

Quando chegaram aos campos de girassóis, Ivan ficou maravilhado com as fileiras de caules firmes e folhas verdes, coroadas por uma grande flor redonda amarela. Eram também mais altas que ele, todas organizadinhas, umas atrás das outras. Imediatamente ficou com vontade de sair correndo pelo meio da plantação, dobrando uma por uma, claro. Desta vez ele seria muito terrível e ia bagunçar aquela coisa toda.

Mas quando se preparava para sair em disparada, notou que a primeira flor de uma das fileiras era a única meio caída, virada para baixo, enquanto as outras estavam eretas e viradas para o céu. Foi então que teve uma reação surpreendente. Alguma coisa no jeito daquela flor deu um fim ao seu impulso destrutivo e Ivan ficou parado olhando a flor com uma certa tristeza.

Sacha e o rei estavam só observando, esperando o momento em que Ivan partiria para suas travessuras. Por isso não entenderam quando o menino resmungou:

– Quero voltar para casa, agora.

Sacha ainda tentou estimular Ivan a explorar o campo de girassóis, mas o rei falou que não valia a pena:

– Não adianta, Sacha. Quando ele quer uma coisa ele não desiste. Ivan é terrível.

Foram embora.

Recolhido em seu quarto, amuado, Ivan ficou pela primeira vez incomodado com essa história de ter que ser sempre terrível. Ele não tinha sentido vontade de despedaçar as flores ou de pisar nelas. Ficou na verdade é preocupado com aquele girassol de coroa caída. Por que estavam todos tão empertigados, vivazes, e aquele era o único pendurado e mole? Passou boa parte da manhã pensando no girassol.

Depois do almoço, enquanto todos descansavam, Ivan decidiu ir sozinho até o campo de girassóis. Até hoje ele não sabe se foi mesmo ou se sonhou que tinha ido. O fato é que de repente se viu diante do girassol caído. Estava olhando para a flor quando ela falou:

– Menino, por favor, me dê um pouco de água, que não estou aguentando de calor.

Ivan não estranhou. Olhou em volta, viu um regador e o encheu numa mina de água ali perto. Assim que começou a regar, a flor pediu:

– Mais na minha cabeça, por favor. Ah, que delícia!

Em pouco tempo o girassol ficou ereto, altivo, e começou a erguer e movimentar sua coroa em direção ao céu, igualzinho a todos os outros girassóis.

Ivan não gostou nem um pouco dessa maneira esquisita de ficar do girassol, virado para o alto em vez de olhar para ele.

– Oh, girassol, para de ficar virado para o céu e olha para mim enquanto a gente conversa.

O girassol então contou que não era a intenção dele ser mal-educado, que apenas não podia ser diferente, que todos os girassóis como ele passavam o dia virados para o sol.

– É assim que nós somos: quando o sol aparece no céu, temos que ficar virados diretamente para ele.

Ivan achou a explicação meio maluca e pouco convincente. Não conseguia admitir que o girassol tivesse a obrigação de corresponder àquela expectativa, atendendo ao desejo do senhor Sol.

O girassol ainda ressaltou que as flores não têm escolha, elas simplesmente fazem o que o sol espera delas e pronto. E perguntou a Ivan:

– Você, por acaso, não faz coisas que todo mundo acha que você tem que fazer?

Era uma boa pergunta e Ivan pensou que, na verdade, ele às vezes fazia travessuras ou se envolvia em confusões só por que ele era terrível. Tinha que ser terrível, assim como o girassol tinha que se virar para o sol. Mas argumentou:

– Ah, é diferente. É que eu sou terrível!

Com cara de confusa e virada para o sol, a flor afirmou:

– Pois acho que comigo você foi é muito amável, e não terrível. Para mim você é Ivan, o amável.

O menino príncipe gostou tanto daquela ideia…

– Puxa, acho que daqui em diante vou deixar de ser o terrível para ser o amável!

Mas, justo quando ele já estava imaginando quais coisas poderia fazer para todo mundo achar que ele era amável, uma pequena abelha que passeava entre os girassóis atrás de néctar assustou-se com alguma coisa e deu uma bela ferroada na bunda de Ivan. O garoto deu um grito e num gesto repentino matou com um tapa a abelha que tinha grudado em sua calça.

Ivan e o girassol ficaram parados por um tempo olhando para o inseto morto no chão.

– Hum, isso não foi nada amável, Ivan. Foi um tapa terrível – comentou o girassol sempre virado para o céu.

Dessa vez foi Ivan quem ficou com cara de confuso.

– Então é possível ser amável num momento e terrível no outro? O que isso quer dizer? E como é que a gente sabe quando deve ser de um jeito ou de outro?

O girassol nessa hora não soube responder. Ficou ali virado para o sol, quieto, como se estivesse refletindo.

Ivan também ficou pensando. E quanto mais pensava, mais as ideias se misturavam em sua cabeça, até que tudo pareceu bem absurdo, ou bem claro. “Não dá para ser só de um jeito ou só de outro, isso ou aquilo, muito menos ser o que esperam que você seja…”

Essa vida de girassol definitivamente não servia para Ivan. Despediu-se do amigo, que continuava virado para o alto, e partiu. Não se recorda exatamente como voltou para casa. Mas lembra que tinha uma sensação boa. Talvez as pessoas fossem uma mistura de jeitos, de sentimentos e de emoções, e a saída fosse mesmo agir de acordo com cada situação.

Daquele dia em diante, passou a pensar sobre si mesmo como Ivan, o flexível.