O Carneirinho Azul

Ele é o caçula de sete irmãos e é muito engraçadinho. Mas sempre que sai para passear com a família, acaba sozinho no meio da floresta por causa do seu passinho curto.

Perdido e com medo, Carneirinho Azul põe a boca no mundo e chama a atenção de outros animais que estão por perto.  Saiba como ele consegue se sair de cada situação e ainda por cima viver muitas aventuras.

Ouça também a entrevista com a psicóloga Lidia Rosenberg Aratangy na série Conversas com o Capitão Moish sobre a interpretação que ela fez dessa história e como as narrativas são importantes para o desenvolvimento da criança.

 

 

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Era uma vez dom Carneiro, dona Ovelha e seus sete cordeirinhos. Todas as manhãs, a família passeava pela floresta muito animadamente, conversa vem, conversa vai, caminhando e cantarolando.

O caçula era muito engraçadinho e se chamava Carneirinho Azul. Como era pequeno, tinha o passo mais curto. Naquele dia, enquanto todos avançavam, Carneirinho Azul foi ficando para trás. Até que… não viu mais ninguém!

– Cadê todo mundo?

Carneirinho Azul ficou por um instante parado. Estava no meio da floresta, sozinho, longe de casa. Ele começou a ficar preocupado, triste e choramingou:

– Ai, ai, ai, e agora? Não sei para onde ir… Cadê minha família? Cadê meu pai, minha mãe, meus irmãos?

Bem longe dali, mas não tão longe assim, dona Girafa fazia sua refeição. Com o pescoço comprido enfiado no topo das árvores, ela escolhia as folhas mais gostosas para comer. Foi quando ouviu um choro baixinho e, curiosa, resolveu espiar.

Depois de alguns poucos passos, avistou um chumaço de pelos azuis e perguntou:

– Por que você está chorando?

Carneirinho Azul virou a cabeça para o alto, assustado.

– Eu estava passeando na floresta com meu pai, minha mãe, meus irmãos. E, de repente, fiquei sozinho – contou desolado.

Dona Girafa abriu e fechou os grandes olhos duas vezes.

– Vamos fazer assim: vou abaixar o pescoço até o chão para você subir na minha cabeça; então vou levantar devagar e lá de cima você vai conseguir enxergar sua família!

Dito e feito. Uma vez montado em dona Girafa e segurando com cuidado nos chifres dela, Carneirinho Azul logo se viu nas alturas. Ele olhou para a frente e não viu ninguém. Olhou para trás, nada. Olhou para a esquerda, nadinha. Quando olhou para a direita, seu coração acelerou.

– Olha lá meu pai, minha mãe, meus irmãos! Dona Girafa, me leva até eles?

Dona Girafa concordou, claro.

– Segura firme e vamos! – E saiu galopando a toda velocidade com as longas e musculosas pernas.

Chegaram num piscar de olhos.

– Olhem quem eu encontrei na floresta sozinho, chorando! – disse dona Girafa enquanto curvava o pescoção até o solo para deixar Carneirinho Azul descer.

Dona Ovelha levou um susto. Dom Carneiro ficou surpreso.

– Nossa, como isso foi acontecer?

Agradeceram muito à dona Girafa pela ajuda, que, satisfeita, retomou o caminho para enfim terminar sua refeição.

Entusiasmados com a família reunida, dom Carneiro e dona Ovelha resolveram continuar o passeio com seus sete cordeirinhos. Papo vem, papo vai, caminharam mais um pouco, conversando e cantarolando. E Carneirinho Azul foi ficando para trás. Suas pernas e seu queixo começaram a tremer. Então ele parou.

– Ai, ai, ai, estou sozinho de novo, sem minha família, sem meu pai, sem minha mãe, sem meus irmãos, sem dona Girafa… E agora?

Não muito longe dali, seu Elefante cheirava os arbustos e remexia a terra com as presas à procura de raízes e água. Patas e tromba se movimentavam pesadamente quando o enorme animal ouviu um lamento. Curioso, ele resolveu espiar. Marchou em direção ao ruído e topou com uma bolinha de pelos azuis.

– Por que você está chorando?

– Eu estava passeando com meu pai, minha mãe, meus irmãos, mas eles sumiram, eu fiquei para trás – contou amuado Carneirinho Azul, derrubando uma gorda lágrima no chão.

Seu Elefante abanou as orelhas alertas.

– Tenho uma ideia! Vou pegar você com minha tromba e também vou ficar de pé sobre as patas traseiras. Lá de cima, você vai conseguir enxergar sua família!

Dito e feito. Enrolado e erguido nas alturas pela tromba do elefante, Carneirinho Azul olhou para trás e não achou ninguém. Olhou para a esquerda, nada. Olhou para a frente, nadinha. Quando olhou para a direita, seus olhos se encheram de alegria.

– Olha lá meu pai, minha mãe, meus irmãos! Seu Elefante, me leva até eles?

– Segura firme e vamos! – avisou o elefante, descendo com estrondo as patas que estavam no ar.

Chegaram rápido como um raio.

– Olhem quem eu encontrei sozinho na floresta, chorando! – disse seu Elefante depositando Carneirinho Azul no chão com carinho.

Dona Ovelha levou um baita susto. Dom Carneiro ficou muito surpreso. Agradeceram demais a seu Elefante, que satisfeito, retomou a busca por raízes e água fresca.

Entusiasmados com a família reunida, dom Carneiro e dona Ovelha resolveram continuar o passeio com seus sete cordeirinhos. Papo vem, papo vai, o passo comprido dos irmãos, o passo curto de Carneirinho Azul… Quando ele se deu conta, tinha ficado para trás outra vez!

– Ai, ai, ai, que azar! Não sei onde estou, onde está minha família, meus pais, meus irmãos… Não tem dona Girafa nem seu Elefante. E agora?

Perto dali, voando no céu, estava dona Arara Gigante. Ela procurava um lugar com bons troncos ocos de árvore para fazer seu ninho. Quase entre as nuvens, ela ouviu um queixume e, curiosa, decidiu conferir.

Abriu as asas grandes e coloridas, mirou abaixo e pousou com elegância ao lado do pontinho de pelos azuis encaracolados.

– Por que você está chorando?

– É que eu estava passeando com meu pai, minha mãe e meus irmãos. Mas eles andam muito rápido e me perdi! – soluçou Carneirinho Azul já sem esperanças, sentado no meio do caminho.

Dona Arara apertou o bico grosso e curvo e propôs:

– Olha só! Vou carregar você com minhas garras e vou sobrevoar a floresta. Lá de cima, você vai conseguir enxergar sua família!

Dito e feito. Com o corpinho preso pelos pés de dona Arara, Carneirinho Azul olhou para a esquerda, não viu ninguém. Olhou para a direita, nada. Olhou para trás, nadica. Quando olhou para a frente, seu rosto se iluminou.

– Olha lá meu pai, minha mãe, meus irmãos! Dona Arara Gigante, me leva até eles?

– Se segura e vamos! – disse ela batendo as asas num impulso.

O pássaro planou em grandes círculos no ar aproveitando as correntes de vento. Chegaram como num passe de mágica.

– Olhem quem eu encontrei sozinho no meio da floresta, chorando! – falou dona Arara Gigante ao aterrissar para desembarcar Carneirinho Azul.

Dona Ovelha levou um baita susto daqueles. Dom Carneiro ficou muito surpreso mesmo. Agradeceram efusivamente à dona Arara Gigante, que satisfeita, levantou voo e retomou a busca por um oco de tronco ideal para construir seu ninho.

Entusiasmados com a família reunida, dom Carneiro e dona Ovelha resolveram continuar o passeio com seus sete cordeirinhos. Anda para lá, anda para cá, conversa vem, conversa vai, adivinha o que aconteceu não muito tempo depois?

– Ai, ai, ai cadê minha família? Cadê meu pai, minha mãe, meus irmãos? E agora? Não tem ninguém para me ajudar, não tem dona Girafa nem seu Elefante nem dona Arara Gigante! – desesperou-se Carneirinho Azul com a cabeça enfiada entre os cachos macios e azuis.

Bem perto dali, seu Macaco brincava nas árvores enquanto procurava por frutos. Foi quando ouviu um balido aflito e, preocupado, achou melhor espiar. Pendurou-se nos cipós pelos longos braços e com a ajuda da cauda pulou de galho em galho até chegar ao local de onde vinha o ruído. Deu de cara com um tufo de lã azul soluçante e confuso.

– Por que você está chorando?

– É que eu estava passeando com meu pai, minha mãe, meus irmãos… – e repetiu a história que a gente conhece.

Seu Macaco, muito amoroso, deu um abraço apertado em Carneirinho Azul.

– Já sei – disse ele! – Você monta nas minhas costas e eu subo pelos cipós até chegar no topo da árvore mais alta da floresta, de onde você vai enxergar sua família!

Dito e feito. Em pouco tempo, Carneirinho Azul estava se equilibrando no tronco de um velho Jequitibá de 40 metros de altura. Olhou para a esquerda, não viu ninguém. Olhou para a direita, nada. Olhou para a frente, nadica. Quando olhou para trás, arrepiou-se de emoção.

– Estão bem aqui atrás! Seu Macaco, me leva até eles?

– Segura firme e vamos!

Seu Macaco pegou embalo e disparou, bamboleando pelas árvores. Saíram num pé e chegaram no outro.

– Olhem só quem eu encontrei sozinho na floresta, chorando! – contou seu Macaco enquanto desvencilhava Carneirinho Azul de seu corpo.

Dona Ovelha dessa vez falou muito séria:

– Não é possível!

Dom Carneiro ficou pasmo:

– Não estamos sabendo fazer as coisas direito!

Seu Macaco, que era muito esperto e amigo, deu uma sugestão:

– E se durante os passeios, Carneirinho Azul andar na frente, os irmãos logo atrás e vocês por último, todos no mesmo ritmo? Assim, ninguém se perde de vista.

– Mas que boa ideia, seu Macaco! – festejou dom Carneiro.

– Puxa, como a gente não pensou nisso antes? – comemorou dona Ovelha.

Agradeceram infinitamente a seu Macaco, que satisfeito, agarrou-se nos cipós e desapareceu na mata atrás de frutos e diversão.

Entusiasmados com a família reunida e com a nova estratégia para se manterem juntos, dom Carneiro e dona Ovelha resolveram continuar o passeio com seus sete cordeirinhos. E daquele dia em diante, Carneirinho Azul nunca mais se perdeu na floresta.