Pum de Fogo

Kraul era ainda filhote e já ansiava ser como o pai, um indivíduo temido e admirado dentre os de sua espécie. Mas os amigos riam das fantasias dele, que ficava bravíssimo. Até quem um dia, o dragãozinho protagoniza uma cena curiosa que dá muito pano para manga…

Essa história acontece na longínqua Ilha do Fogo, uma das dez ilhas que formam o arquipélago de Cabo Verde. Ali, milhões de anos atrás, viviam os dragões de fogo, répteis imensos e robustos que, naturalmente, soltavam fogo pelas ventas.

Cada contação de história corresponde a uma entrevista na série Conversas com o Capitão Moish. Vem ouvir!

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Milhões de anos atrás, quando homens, mulheres e crianças não existiam ainda, o planeta tinha outra temperatura, vegetação e superfície, e estava em permanente transformação, a cada momento se configurando de jeitos diferentes, formando novos pedaços de terra, regiões e ilhas vulcânicas e rochosas.

No meio do oceano Atlântico, próximo da costa do que conhecemos como África hoje, da explosão de um vulcão surgiu nessa época a pequena ilha do Fogo. A depressão que se formou no centro desse vulcão tornou-se com o tempo um lugar habitável, propício à vida, que ficou conhecido como Chã das Caldeiras. Ali surgiram vários répteis, anfíbios e aves de proporções gigantescas, hoje totalmente extintos. 

Dos terrestres, os mais admiráveis eram os dragões do fogo. Os indivíduos adultos dessa espécie eram robustos e dominavam o pedaço. Os machos afastavam seus predadores soltando labaredas de fogo pelas narinas. Era o seu mecanismo de defesa. As chamas, de tão potentes, podiam incinerar qualquer oponente.

Os dragões gostavam de se reunir à noite para trocar experiências. Nessas ocasiões, cada um deles narrava as brigas e disputas com outros animais. Era um ritual necessário, pois compartilhavam táticas de sobrevivência, mas é claro que aproveitavam também para exibir suas bravuras e artimanhas.

– A ave estava me perseguindo. Larguei o ictiossauro no chão, com se tivesse desistido dele. Imagina abandonar um peixe suculento daqueles! Me escondi e fiquei esperando que a maldita ave viesse buscá-lo. Quando ela fez uma volta no céu, embicou para baixo e deu um rasante sobre o ictiossauro, soltei meu fogo sobre ela, fuuaahhhh!

E uma enorme chama saiu das ventas do dragão que fazia o relato daquela noite, iluminando quase toda a caldeira. Ainda segundo ele, a ave, um enorme pterossauro, saiu de cena rapidinho com as asas completamente chamuscadas, deixando para trás a pesca deliciosa.

As crianças participavam da reunião em silêncio, hipnotizadas pelas cenas de perigo e destreza. A hora de confronto ainda não tinha chegado para elas, que eram pequenas e frágeis; além disso, os mecanismos responsáveis pela liberação do gás que produzia o fogo daqueles animais poderosos ainda não estavam plenamente desenvolvidos.

Kraul adorava ouvir e imaginar as histórias de combate, principalmente a parte incendiária. Seu pai, Krani, um dragão imponente, de estrutura óssea pesada e larga, capaz de lançar uma rajada de fogo de dezenas de metros, era temido e respeitado. O garoto o admirava e tudo que queria era ser como ele ao crescer, para caçar e defender o Chã das Caldeiras.

Ele frequentava a escola com os demais dragõezinhos de sua idade. Na hora do intervalo, cheio de entusiasmo, costumava encenar os relatos dos adultos nos encontros da noite anterior afirmando que assim que crescesse suas chamas seriam como as do pai. Os colegas riam dos exageros de Kraul e zombavam dele dizendo que no máximo produziria uma fumaça, talvez uma faísca.

Nessas ocasiões, Kraul, sem saber muito bem como se comportar, ficava bastante nervoso, sem querer instigando ainda mais o espírito provocador da turma. Mas na semana seguinte, despido de qualquer sentimento de rancor, lá estava ele de novo representando, contando histórias e em seguida virando motivo de zoação. A situação vinha se repetindo desde o início do novo ano e Kraul, de certa forma, se acostumou a ela.

Um dia porém, ele soltou um pum estalado de tão nervoso que ficou. A gargalhada foi geral e pegaram no pé de Kraul pra valer. A partir desse episódio, a qualquer manifestação do menino, os colegas tiravam sarro dele. E Kraul foi ficando de tal forma irritado, furioso, colérico, enraivecido, frenético e furibundo que, na semana seguinte, com a raiva acumulada, soltou outro sonoro pum sem querer; só que dessa vez, junto com o pum saiu uma fagulha que, sem que ele percebesse, queimou sua cueca.

Quando foi para casa, Kraul enfurnou-se direto no quarto para brincar com os carrinhos que ele mesmo havia construído com espinhas de ictiossauro enquanto Kaura, sua mãe, preparava o jantar. Krani ao chegar logo depois, imediatamente exclamou:

– Kaura, que cheiro de queimado é esse, tem alguma coisa no fogo que passou do ponto?

Os dois investigaram todos os cantos da casa, e procura daqui e cheira dali, nem Krani nem Kaura conseguiram achar nada que explicasse o cheirinho desagradável. Inspecionaram a cozinha, a sala, os banheiros… Finalmente, chegaram no quarto de Kraul e então notaram ao se aproximar do menino… Sim, o cheiro de queimado vinha daquele dragãozinho querido!

– Kraul, que cheirinho é esse em você? Aconteceu alguma coisa? – Kaura perguntou docemente.

– Nada, mamãe, não estou sentindo nada! – Kraul respondeu com displicência.

Não é verdade que quem quem solta um pum raramente se denuncia? Depois, já fazia algum tempo desde o ocorrido. Como é que eles poderiam mesmo saber?

Krani resolveu o impasse mandando Kraul ir para o banho. Quando o dragãozinho tirou a cueca, lá estava ela toda chamuscada.

– Que coisa, nunca vi uma cueca queimada antes! – Kaura exclamou.

De fato, cueca queimada na Ilha do Fogo não era lá muito comum.

Em seguida à sua reação de surpresa, Kaura engatilhou a pergunta:

– Filho, por acaso você sentou em alguma das pedras quentes do vulcão? Já te falei para tomar cuidado com isso e não se aproximar demais da lava escorrida.

– Não mãe, fiquei direto dentro da escola, não passei nem perto das pedras quentes. Sei lá como foi acontecer isso! – respondeu Kraul.

Sem a possibilidade de resolver o mistério, deram a questão por encerrada e prepararam-se para jantar. Mas no fundo, no fundo Krani e Kaura estavam intrigados:

– O que será que esse pequeno aprontou? – sussurraram um para outro enquanto Krani lavava a louça.

 

A semana passou sem novidades.

No final de uma tarde fria, no entanto, no horário do recreio, no pátio da escola, Kraul se lembrou de uma história que não contava há tempos: o dia em que o pai, sozinho, encarou quatro triceratops muito chifrudos, matando dois e fazendo os outros dois saírem correndo aterrorizados com o fogo que brotava de suas ventas. E, para arrematar, emendou:

– Eu também um dia vou produzir uma chama tão forte, mas tão forte, que vou dar conta de uns seis tiranossauros sozinho! 

Pronto, foi a deixa para que seus colegas começassem a zombar dele.

– Kraul é um bacamarte, só mata eurekas de marte! – eles repetiam em coro referindo-se a umas minúsculas formiguinhas que ficam metidas embaixo da terra procurando minhocas para comer.

E mais: que o fogo de Kraul não aguentaria nem uma pequena brisa de verão.

Kraul começou a ouvir aquela brincadeira de mau gosto e a ficar muito chateado. E de chateado foi ficando irritado. E de irritado passou a ficar furioso, colérico, enraivecido, frenético e furibundo. E num dado momento: PUUUUUUUUM! Kraul não aguentou e soltou o maior pum de sua vida. Só que dessa vez, ele sentiu um calor estranho nos fundilhos da cueca.

Enquanto os meninos riam descontroladamente do tremendo pum, Kraul se esgueirou pelos cantos do pátio e, disfarçadamente, foi até o banheiro onde, envergonhado, verificou um tremendo furo na cueca queimada.

Quando chegou em casa, Kraul foi direto tomar um banho, sem falar com ninguém. Krani e Kaura acharam estranho e de novo perceberam o cheiro de queimado. Mas logo o mistério foi solucionado. De banho tomado e cheiroso, o menino finalmente contou o que vinha acontecendo com ele.

Kaura abraçou o filho e expressou o quanto era chata a situação.

– Seus amigos não deviam caçoar assim de você, meu filho!

Krani, preocupado, deu um conselho:

– Não precisa levar tão a sério o que pensam ou dizem de você, Kraul. E é importante também saber controlar as emoções.

Kaura completou com uma frase que ele lembraria mais tarde:

– Sabe, filho, às vezes, uma coisa que um dia é motivo de crítica ou de gozação pode outro dia ser motivo de admiração.

Kraul precisou exercer a capacidade de autocontrole várias vezes nos meses seguintes. Algumas com sucesso, outras com cuecas queimadas por causa de alguns PUUMMMMS. Com o tempo conseguiu relaxar e ser capaz até de rir junto com os amigos em vez de ficar muito bravo.

O ano chegou ao fim. Para comemorar o encerramento das aulas, as professoras da escola programaram um acampamento no alto do Chã das Caldeiras.

Levaram barracas, bolas, redes, raquetes além de, claro, bebidas e filés de brontossauro para um superchurrasco. Carvão não precisava, pois havia pedaços de árvores queimadas por toda parte. Eram os restos da última erupção do vulcão.

Depois da caminhada de três horas e da montagem das barracas, os dragõezinhos brincaram e jogaram até cansar. Foi quando bateu aquela fome. As professoras estavam justamente nesse momento juntando pedras, gravetos e ramos queimados para fazer o fogo para o churrasco. Empilharam tudo com cuidado. Salgaram a carne e quando foram acender a chama…

– Uai, cadê os fósforos? – todas gritaram ao mesmo tempo.

Ninguém tinha lembrado do detalhe. Apenas machos adultos produziam fogo. No acampamento só havia crianças e fêmeas adultas! A brasa mais próxima agora ficava lá embaixo, no fundo da caldeira!

A criançada, com fome e impaciente, imediatamente fez coro:

– Acabou a partida, queremos comida! Acabou a partida, queremos comida!

Alguns começavam a dar sinais de esgotamento nervoso. Kraul estava bem próximo disso. De irritado passou a ficar furioso, colérico, enraivecido, frenético e furibundo. Na tentativa de se acalmar, afastou-se da confusão e sentou meditativo de pernas cruzadas. Mas os gases em seu estômago se avolumaram de tal maneira que sentiu que ia estourar. E PUMMMMM!

Dessa vez, o pum extraordinário veio acompanhado de uma pequena labareda. Kraul levantou assustado por causa do calor que provocou. Nesse momento, percebeu que alguns gravetos perto dele pegaram fogo.

O espanto foi geral. E a alegria também. O problema estava resolvido. Agora poderiam comer e a festa poderia continuar.

Os amigos de Kraul dessa vez festejaram o pum de fogo. Em vez risadas, gozações e provocações, queriam ouvir a façanha. Formaram uma roda em volta dele e dispararam perguntas:

– Como ele fazia para controlar o pum de fogo?

– A faísca era quente demais?

– Quantas vezes por dia ele conseguia soltar faísca?

“Hmmm, não é que aquela história de paciência, autocontrole, falhas que viram motivo de admiração funcionam? Minha mãe e meu pai tinham razão!” – pensou Kraul admirado e feliz.

Na verdade, Kraul estava se transformando em um pré-adolescente prestes a conquistar a capacidade de gerar fogo sob seu controle. E isso é tudo que um dragão adulto pode querer.

FIM