Marinheiro só

O fandango é um folguedo popular encenado na época do Natal em homenagem aos marujos, à vida difícil em alto mar. Suas inspirações estéticas e identitárias vêm dos quatro cantos do mundo. Difícil dizer se é de tradição árabe, portuguesa, espanhola, latino-americana. E dependendo de suas origens e variantes, é também conhecido como chegança, barca ou marujada.

No Brasil, em meio a mais de cem marcas diferentes, representado em festas de norte a sul do país, o fandango mistura cantigas de tradição popular e xácaras portuguesas, as narrativas populares em verso. Uma muito famosa atravessou os séculos e os mares: a Nau Catarineta. O poema remonta ao século XVI e renasce, de geração em geração, através da tradição oral, incorporado a autos e cortejos. A narrativa conta as desventuras pelas quais passa a embarcação ao longo de sete anos e um dia depois de partir não se sabe se da Espanha, do Brasil ou da Índia. O destino era Portugal e carregava riquezas e especiarias.

Os versos da Nau Catarineta, puxados pelo Mestre ou Patrão e repetidos pelos marujos, falam de tempestades, motins, calmarias, fome até o embate final entre o diabo, representado pela figura do Gajeiro, e o Capitão da nau, salvo da morte pelas mãos de um anjo. Pandeiros, rabecas, violões e maracas integram a orquestra. O poema é cantado e dramatizado ao ar livre por homens, mulheres e crianças (dependendo da versão e da região); desfilando pelas ruas, eles dançam e imitam o movimento das ondas até chegar ao local escolhido, em geral, em frente a uma igreja, sobre um tablado, onde é feita a encenação completa.

A Nau Catarineta foi cantada por diversos escritores e poetas em Portugal e no Brasil, como Gil Vicente, Almeida Garret, Silvio Romero, Câmara Cascudo, Mario de Andrade e Ariano Suassuna. O escritor e ilustrador Roger Mello também fez sua leitura do belo poema trágico.

As ilustrações de traço primitivista de Roger Mello sobre os versos da Nau Catarineta são uma verdadeira festa para os olhos, feitas com cores fortes e quentes, repletas de detalhes espirituosos e festivos. Cada personagem da história, representado de forma bidimensional, está presente acompanhado de seu elemento cênico de identidade, como o barco com rodinhas, a lanterna, a panela, o espadim. Baseado em extensa pesquisa folclórica e histórica, o trabalho ficou tão incrível que ganhou o prêmio Jabuti em 2005.

E é com a indicação dessa festividade pelas lentes de Roger Mello, que nós, do Histórias do Capitão Moish, queremos encerrar 2019. E desejar a todos os marujos daqui e de além-mares, que 2020 seja repleto de boas histórias para ler, ouvir e compartilhar!

  • Roger Mello nasceu em 1965, em Brasília. Ele é vencedor do prêmio Hans Christian Andersen de 2014 na categoria Ilustrador. O prêmio é concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY), considerado o prêmio Nobel da Literatura Infantil e Juvenil.
Fontes
1.Nau catarineta, Roger Mello, editora Manati, 2a impressão
2.A Nau Catarineta em duas versões infantis: a narrativa popular através das ilustrações, Rhea Sílvia Willmer, XI Congresso Internacional da ABRALIC, "Tessituras, Interações, Convergências", 2008, USP 
3.Fandango, Lúcia Gaspar, Fundação Joaquim Nabuco
4.Marujada de São Benedito, blog Mana-Maní 
5.Fandango, origens e variantes, Secretaria de Educação do Paraná 
6.Marujada, SuaPesquisa.com